Toda casa de campo fica num lugar que me agrada. Pode parecer estranho, mas esses lugares têm ruas de barro, rios com algas indicadoras de poluição, fungos, cheiro palha queimada, palmeiras, casas abandoradas, geralmente com o mato da nossa altura. E mais estranho ainda é que tudo isso me agrada. É bom deitar na rede no finalzinho da tarde, e não ouvir nada, ou ouvir só o grilo que começou a cantar. E porque não ouvir o barulho da cigarra, que canta até morrer? As cigarras têm sorte, porque morrem em um lugar como este.
Esses lugares também vêm acompanhado de solidão. Os que moram ali o ano todo, dividem o dia com si próprio, quando as outras pessoas, infelizes, estão nas cidades, correndo. Correndo do ladrão, do chefe, do carro que parece que vai nos atropelar. Viver na cidade é como correr de um carro: Ele sempre pode correr mais que nós, e ainda assim conseguimos escapar, e por muito pouco, só pra sofrer mais. É como se o atropelamento significasse a infelicidade, o escuro.
E sobre o escuro? Tem mais escuro no campo, ou na cidade? Acho que na cidade, porque também tem luz. Quando se tem luz, é mais fácil sentir o escuro quando ele existe. Mas o escuro ou o claro não me encomoda, desde que ele seja uniforme. Por isso prefiro o campo, onde só a lua e o sol iluminam, sem postes de luz queimados ou coisa parecida.
Chegando ao final desse texto, percebo que ele me faz mal. Ele cria uma esperança boba. Nunca vou me mudar pro campo. Vou viver condenado a essa fuga constante. E quando crescer, a uma fuga ainda maior. Só espero acordar no campo depois da escuridão caso algum carro me atropele ao longo dessa vida.
Um comentário:
ei, não pensa assim.
você sempre pode dar um jeito de fugir dessa coisa de estar sempre fugindo. é um conselho.
beijo.
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