sábado, 30 de agosto de 2008

Solidão.

Sábado de noite. Estou sentindo um vazio muito desconfortável. Talvez seja pelo fato de estar acontecendo, nesse momento, uma festa a qual não fui convidado. Ou pelo fato de todos os meus amigos estarem em algum lugar melhor do que o que estou. Nessa situação, minha rotina se fecha a duas coisas: Olhar minha caixa de e-mail a cada cinco minutos, e constatar que só recebi spam. E aqui continuo, ouvindo de longe a vinheta da novela voltando do intervalo, os latidos de cachorros e quem sabe o som de chuva batendo no telhado.

 O fato é que essa sensação de vazio me persegue ha muito tempo, mas só se acentuou agora. Não gosto de festas, mas preferia estar em uma. E aí fico pensando no que poderia fazer para que esse momento valesse a pena. Ou para que eu pudesse dizer aos meus amigos algo como “Até foi bom eu não ir na festa, pois me diverti muito em casa fazendo...”

 Agora pouco ia ver um filme, mas desisti. Neste momento estou ouvindo meu vizinho falando ao telefone. Ele está dizendo alguns nomes de filmes para alguém. O Quarteto Fantástico, O códico da Vinci, Se ela dança, eu danço. Dos três, só vi o primeiro. Também ouço toda hora um barulho de avião passando aqui perto. Não aqüento essa rota aérea que passa em cima da minha casa. Mas se me der licensa, vou embora. Preciso checar minha caixa de e-mail.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Casa de campo

Toda casa de campo fica num lugar que me agrada. Pode parecer estranho, mas esses lugares têm ruas de barro, rios com algas indicadoras de poluição, fungos, cheiro palha queimada, palmeiras, casas abandoradas, geralmente com o mato da nossa altura. E mais estranho ainda é que tudo isso me agrada. É bom deitar na rede no finalzinho da tarde, e não ouvir nada, ou ouvir só o grilo que começou a cantar. E porque não ouvir o barulho da cigarra, que canta até morrer? As cigarras têm sorte, porque morrem em um lugar como este.

 Esses lugares também vêm acompanhado de solidão. Os que moram ali o ano todo, dividem o dia com si próprio, quando as outras pessoas, infelizes, estão nas cidades, correndo. Correndo do ladrão, do chefe, do carro que parece que vai nos atropelar. Viver na cidade é como correr de um carro: Ele sempre pode correr mais que nós, e ainda assim conseguimos escapar, e por muito pouco, só pra sofrer mais. É como se o atropelamento significasse a infelicidade, o escuro.

 E sobre o escuro? Tem mais escuro no campo, ou na cidade? Acho que na cidade, porque também tem luz. Quando se tem luz, é mais fácil sentir o escuro quando ele existe. Mas o escuro ou o claro não me encomoda, desde que ele seja uniforme. Por isso prefiro o campo, onde só a lua e o sol iluminam, sem postes de luz queimados ou coisa parecida.

 Chegando ao final desse texto, percebo que ele me faz mal. Ele cria uma esperança boba. Nunca vou me mudar pro campo. Vou viver condenado a essa fuga constante. E quando crescer, a uma fuga ainda maior. Só espero acordar no campo depois da escuridão caso algum carro me atropele ao longo dessa vida.

domingo, 10 de agosto de 2008

Copacabana

Praia. Quem não se encanta com as pessoas passando, os velhinhos caminhando e os jovens jogando conversa fora? Ninguem resiste a uma praia, e com Fred, não poderia ser diferente.

 Fred é do tipo praiero. Já perdeu a conta da quantidade de empregos em que foi demitido por chegar atrasado da hora do almoço, onde sempre dá uma caminhadinha pelo calçadão. No percurso, as pessoas perguntavam: “E então Fred? Não foi trabalhar hoje?”, ou “Já acabou o expediente?”, e Fred respondia que sim, que já acabou o expediente, e mesmo que não tivesse acabado, Fred estaria ali, como nos seus tempos de escola, já que nunca parava para estudar, e por isso trabalhava como motoboy.

 A realidade é que a infância de Fred foi muito dura. Quando chegava da escola, encontrava sua mãe chorando, geralmente com um olho roxo. Sempre que perguntava o que havia acontecido, sua mãe dizia que sem querer bateu com o rosto na porta do armário. Realmente: As portas do armário iam aos bares da cidade, bebiam até cair e batiam em quem vissem pela frente.

 Para pelo menos tentar fugir da realidade, o menino freqüentava a praia, ainda que de noite, e observava as ondas, sozinho, com o vento ácido da maresia batendo em seu rosto. E assim cresceu: Diante das ondas, as quais infelizmente, sempre puderam ser comparadas a sua vida: Cresciam um pouco, e novamente caiam.

 Aos quinze anos, seu pai morreu alcoolizado em um acidente de carro, e sua mãe não suportou a perda. Ficou sozinho no mundo. Os vizinhos o acolheu, mas o menino, a partir de então, nunca mais deixou de freqüentar a praia. Sentia ali algo que o completava. Não seus pais, mas alguma coisa que ele não sabia identificar. A grandeza? Talvez.

 Mas o que mais impressionava no Fred, era sua capacidade de fingir que estava tudo bem. Guardava dentro de si os problemas que carregara na vida inteira. E mantinha sempre um sorriso, ainda que falso, no rosto.

 Depois de perder seu último emprego, passou a usar drogas. Com isso perdeu muitas outras coisas: Primeiro o sorriso, depois, a dignidade. Morreu em um hospital público. Seus amigos acham que ele morreu de overdose. Mas overdose de tristeza, e não de drogas.

sábado, 9 de agosto de 2008

Vanildo

Vanildo é um cara que se emociona fácil. Chora até quando vê seu papagaio repetindo palavras ensinadas por ele. 

Juca é um papagaio que aprende rápido. Acha engraçado quando Vanildo chora ao vê-lo fazer coisa tão fácil.

Ninguém sabe ao certo o motivo de tanta emoção que surge de tal homem. Talvez seja a solidão, já que seus relacionamentos, como sempre, vão de mal a pior.

Ao acordar, Vanildo pega o jornal e prepara seu café. Enquanto isso, observa, com orgulho, seu papagaio falar. Emocionado, lembra do dia em que tais palavras foram ensinadas à Juca. Foi quando ouviu algo estranho. Algo que Juca não aprendeu, pelo menos da boca de seu dono. Mas como? Vanildo era solteiro, e nos raros momentos em que estava comprometido, não levava suas namoradas para casa em hipótese alguma. Visinhos? Vanildo morava no centro da cidade, onde não havia visinhos.

De fato Vanildo estava certo. Ninguém aprende nada sem ser ensinado. Alguém invadiu sua casa e teve contato com Juca. Quando? Não houve nenhum momento em que isso pudesse acontecer. Uma das coisas mais protegidas da casa, era a gaiola do Juca. Angustiado, e obviamente, chorando, saiu de casa para dar uma volta. Como hábito, trancou o apartamento. Uma das vantagens de se morar no centro, é o fato de não haver cachorros, e conseqüentemente, não haver cocô de cachorro nas calçadas.

 Com calma, foi pensando: Se fosse alguém que quisesse entrar em seu apartamento sem ter as chaves, como faria? Não faria. Era impossível entrar em sua fortaleza. Foi quando de repente parou. Simplesmente parou. Lembrou de sua secretária eletrônica. Há tanto tempo não recebia um recado, que já até esquecido dela ele tinha. Sem medo, atravessou as ruas do centro, que estavam vazias, já que era domingo. Chegou em casa, olhou para a secretária, apertou o botão. Imediatamente, uma voz doce surgiu: “Vanildo, a saudade que sinto é dolorosa, e não posso mais agüentar. Por favor, volte para mim, eu te amo! Amo, amo, amo e amo.” Amo. Essa era a palavra. Vanildo olhou para Juca que disse: “Amo, amo e amo”. Ah! Se a secretaria de Vanildo tivesse vida. Ele a agarraria por todos os lados e lhe daria um imenso beijo. Fora a primeira palavra que Juca aprendeu, sem a presença de Vanildo. A partir daí, todos os dias, quando acordava, pegava o Jornal, e ouvia seu papagaio dizer: Amo, amo, amo. Tudo aquilo que Vanildo nunca teve por completo, seu papagaio agora dizia, todas as manhas, em enorme clareza: “Amo, amo e amo.”